Os leitores preferem as loiras ou como
o povo não gosta de Maria Gabriela Llansol
16/05/06
O prestígio editorial de um grupo
de romancistas consideradas "ligeiras" e em geral menosprezadas
pela crítica que se pretende séria (mas há exemplos muito
semelhantes na literatura escrita por homens) deve também ser
assinalado, pelo que sintomático pode revelar acerca do estado
actual da cultura e do ambiente literário portugueses. Os trinta
anos que se seguiram à "revolução" de Abril de 1974 e a integração
na Comunidade Europeia não parece terem resolvido, antes pelo
contrário, o problema da educação em Portugal. O elevado número de
analfabetos ainda existentes no país e o facto de Portugal
continuar a ocupar nas estatísticas e relatórios europeus sobre o
estado da educação os lugares da cauda indicam que a grande reforma
da sociedade portuguesa ainda não foi feita. O fosso entre as
elites citadinas, com pretensões arrogantes e por vezes
provincianas de cosmopolitismo, e o resto da população não só não
foi eliminado como parece ter-se tornado mais profundo nos últimos
anos. A diminuição da exigência que tem vindo a instalar-se no
ensino escolar acaba assim por ter sérias consequências na produção
e no consumo de bens culturais. A essa situação deprimente não
escapa a literatura.
João Camilo dos Santos, "A Literatura
Portuguesa Contemporânea" in António Costa Pinto (coord.),
Portugal
Contemporâneo, Lisboa,
Dom Quixote, 2004, p.248.
João Camilo dos Santos é professor no departamento de espanhol e
português da Universidade da Califórnia - Santa
Barbara.