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Uma senhora viaja acompanhada. Lê um livro e fala com a pessoa ao lado dela. Lê e fala em simultâneo. A serena disponibilidade para falar com o jovem que a acompanha é a mesma que dedica à leitura, igualmente diligente numa e noutra tarefa.

A senhora lê, linha a linha, com as mãos em constante movimento, um livro em braille.
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Citação #10 (da morfologia)

«Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.»

Pilar del Río em entrevista a João Céu e Silva, Diário de Notícias, 6 de Julho de 2008
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Do toucinho e das vírgulas

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O predicado é o que se diz do sujeito. Se digo que "o toucinho engorda", uma coisa sei sobre o toucinho: que engorda. Não se justifica uma vírgula. Aliás, é erro de palmatória por vírgula entre o sujeito e o predicado. Muito bem. Acontece que o sujeito é, por vezes, mais complicado que um simples toucinho. Exemplo: "comer toucinho engorda". O que é que eu sei sobre "comer toucinho"? Que engorda. Muito bem. Mas o sujeito pode complicar um pouco mais: em número de palavras, a função é a mesma. Exemplo: "o que não mata engorda". O que é que eu sei sobre coisas que não matam. Que engordam. Não faz falta a vírgula. Ou faz?
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Citação #9 (da leitura)

«Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, em vez disso, o leitor se desgasta, se esvai em milhares de livros mais áridos do que três desertos.»

Nelson Rodrigues, O Óbvio Ululante
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Sem-Abrigo

Sentado no chão, encostado a um recanto cagado pelos pombos, em cima de um saco-cama sujo e roto, não pede uma moeda, não olha para cima a desejar bom fim-de-semana aos que dão alguma coisa e aos que não dão. As pessoas ignoram-no mas ignoram-no sem esforço, sem a pressa fingida do costume. O homem sentado no chão lê, com toda a atenção e quase sem pestanejar, um livro.
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Portobello Road às Três da Tarde #2

Uma mulher de burka a comprar legumes. Um homem em tronco nu seguido de dois cães atrelados um ao outro (param, ao lado do dono, em frente à passadeira). Uma mulher de bicicleta e saltos altos. Um senhor de chapéu e bengala. Um jovem de gorro e, pelo menos, dois agasalhos (vinte e tal graus). Um par de namorad@s a conversar na rua. Uma mulher com as palavras "olhar de esperança" escritas na frente da t-shirt (em português). Uma senhora de idade a puxar o carrinho das compras. Dois turistas de máquina fotográfica ao pescoço.
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Portobello Road às Três da Tarde #1

Dois ou três clientes bebericam café. Lá fora faz sol. Entra um grupo de rapazes, pedem café e chá ao balcão. Entretanto ouve-se a empregada perguntar se não vão mesmo pagar as bebidas. Os rapazes saem a rir. Um dos empregados segue-os e diz, com sotaque italiano, "ya fuckin niggers". Um dos rapazes vira-se para trás a tirar satisfações. Um nativo (branco) que entretanto entrara aconselha-os, em tom paternalista, a saírem e a evitarem problemas. Tudo volta à pacatez inicial.
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Mãe, também quero um acordo ortográfico

Por infeliz idiossincrasia ou contumaz regionalismo digo os ós abertos. Por isso, quero poder escrever estômago com acento agudo: estómago.
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Perder a noção do tempo 2

É o primeiro dia de uma viagem de vinte dias. Nos primeiros dez, Laura afastar-se-á da Terra. Nos derradeiros dez, Laura aproximar-se-á da Terra. Sempre a 99,9999999996% da velocidade da luz. Laura estará de volta no dia 28 de Fevereiro.

Mas que tempo verbal deverá usar para se referir ao seu aniversário?


Se a viagem é feita a 99,9999999996% da velocidade da luz, o tempo do veículo espacial desacelera em relação ao da terra. De acordo com a fatia temporal dos viajantes estelares, Laura pode ainda festejar o aniversário. Pode usar o presente do indicativo e dizer qualquer coisa como "amanhã é o dia do meu aniversário", com a certeza de quem verifica um facto. Ou usar um presente perifrástico (com valor de futuro): "vou celebrar o meu aniversário". No entanto, na terra passaram 10 000 anos. Estamos no ano 12 980 e os amigos e familiares de Laura já não se encontram entre os vivos (daí o misto de alegria e pesar da nossa cosmonauta). Laura já não pode festejar o aniversário de 2980. Este pertence ao passado e, como tal, devemos falar dele com um pretérito perfeito, reservado aos factos consumados e acabados. Quer isto dizer que o dia que Laura queria celebrar já não existe. A sensação de que esse dia ainda pertence ao futuro mais não é do que a nostalgia de alguém que se regula por um tempo que não foi o seu. Resta-lhe abraçar o futuro: 12980 é ano bissexto e Laura pode festejar o seu dia 29 de Fevereiro.

[inspirado numa passagem das páginas 448 e 449 do livro The Fabric of the Cosmos de Brian Green]
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Só podem sair da escola ao fim do dia

Um dia, no início da ida década de 90, assisti a um palestra sobre o sistema de ensino inglês. A palestrante era uma professora inglesa a dar aulas em Portugal, numa universidade. Não me lembro exactamente dos temas que foram tratados, só me lembro que foi tudo muito factual. Até à parte das perguntas. Apesar do que se possa pensar (e de incontestáveis pontos fortes), o ensino inglês não é (e não era, na altura) só virtudes: aliás, se os portugueses são os bárbaros da Europa, os ingleses são os bárbaros do norte da Europa. De qualquer maneira, as coisas passaram-se assim.

Uma rapariga pede a palavra e diz que já tinha ido ao Reino Unido. Que tinha gostado mas que as escolas eram muito rígidas, que os alunos só podiam sair da escola ao fim do dia, que era preciso usar uniforme e que o ambiente era muito menos descontraído. Enfim, afinal não tinha gostado assim tanto e só lhe faltou dizer que os britânicos eram uns cinzentões mal-humorados.

A senhora ouviu e explicou que, de facto, havia certas regras que podiam parecer excessivas mas que, para melhor estabelecer a diferença com Portugal, lhe ia fazer uma pergunta. Era verdade que havia todas aquelas regras dentro da escola mas seria possível que os pais daquela menina lhe dessem, como era normal no Reino Unido, a liberdade de nas férias viajar sozinha pela Europa?
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Uma questão de prestígio

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Um título que circulou pelos jornais aqui há uns tempos – “Reclamante condenada em tribunal por “pôr em causa o prestígio” do restaurante” – fez-me lembrar a campanha lançada pelo humorista Nuno Markl contra a palavra “prestígio” no blog Há Vida em Markl.

Primeiro a notícia: uma mulher é condenada em tribunal a pagamento de indemnização e a 75 (?) dias de prisão (substituidos pelo pagamento de 15 euros ao dia) por ter posto “em causa o prestígio, crédito e confiança” do restaurante. Segundo a notícia, a senhora terá mostrado a sua insatisfação com o serviço de uma maneira particularmente visível e audível, comportamento que o tribunal terá considerado incompatível com o “prestígio” do estabelecimento. Causa aqui estranheza que este "prestígio" tenha propriedades de tal maneira objectivas e tangíveis que possa ser tão minuciosamente quantificado. Repare-se: 300 euros de multa + 15 euros x 75 dias de prisão = 1425 euros. Afinal, a palavra "prestígio" não é um substantivo abstracto (enfim, quem tiver algum interesse nas ramificações mais ou menos políticas do caso, leia a notícia e os comentários no jornal Público).

A campanha: provavelmente como reacção a esta passagem de substantivo abstracto a substantivo demasiado concreto, a campanha, baptizada de Operação Prestígio (nome a fazer lembrar o programa de televisão em que Markl é jurado), tem como alvo o uso abusivo da palavra, que serve, segundo o quase-manifesto do humorista, "tanto para vender bombons ou papel higiénico de marcas respeitáveis, como para definir a carreira de pessoas ilustres". Indiscriminadamente, claro – o que contribui para o descrédito e esvaziamento da palavra. Markl propõe uma mudança de significado: onde se lê “notoriedade” ou “valor” leia-se “cu”. Sim, “cu”. O dicionário, tomando o cuidado de nos avisar que a palavra é um vulgarismo, diz-nos o que se entende por “cu”: extremidade do intestino grosso, ânus, nádegas, rabo, fundo da agulha, assento. Enfim, assimilada a mudança de significado, as possibilidades são infinitas. Eis algumas das sugeridas pelos leitores do blog:

  • vossa excelência tem um prestígio imenso; com o passar do tempo, o seu prestígio foi descaindo; gostaria um dia de possuir o seu prestígio (Susana, leitora que foi particularmente generosa em sugestões)
  • eu por acaso tenho uma amiga com um bom prestígio... mas bem bom! (Manuel Reis)
  • Os árbitros insistem em denegrir o prestígio do meu benfica (Pedro Pereira)
  • Tens mesmo cara de prestígio. (POVD)
  • Viva o prestigio africano!!! E o brasileiro. E o sueco. (Flávio)

Para lá do propósito humorístico da proeza, é entusiasmante ver um falante/escrevinhador da sacrossanta língua do defunto Camões, sem outra autoridade que a de um mero utilizador (se bem que profissional: Markl é argumentista), ousar tentar mudar o estado das coisas. É que Markl não se pode valer das formas de legitimação tradicionais. Markl não é escritor literário e não tem o exército de críticos-jornalistas e críticos-académicos, professores universitários, fazedores de currículos e autores de manuais escolares a tecer-lhe loas à capacidade de reinvenção da língua. Markl não é linguísta e não tem uma editora a apadrinhar-lhe a capacidade de iniciativa com uma publicaçãozinha (dicionário, gramática ou afim) nem o poder político a transformar-lhe a proposta em decreto-lei ou despacho. Não tendo nada disto, Markl valeu-se da rádio (a coisa parece ter começado na rádio) e da internet. E alguém se lembrou da Wikipedia para dar um ar mais oficial à campanha.

[A rádio e sobretudo a televisão podem ser meios poderosos de introdução (ou reintrodução, no caso das novelas brasileiras) de palavras e expressões. O problema é chegarem à oficialidade de um dicionário, por exemplo.]

E o que pensou a comunidade wikipédica do assunto? Foi motivo de animada polémica até ao momento que a entrada "operação prestígio" foi definitivamente apagada. A dita campanha, o facto em si (e a subsequente entrada), foi acusada de não ter valor enciclopédico. A decisão final (por votação) foi a de eliminar o artigo mas as vozes que se fazem ouvir ler na página de discussão são de apoio incondicional: "Não importa o que chamar ao artigo que criei. O que fiz foi relatar um facto. Um acontecimento. Qualquer informação que não seja mentira tem valor enciclopédico (para alguém)" (Mario, autor da entrada?). O argumento do "valor enciclopédico (para alguém)" parece-me interessante. A Wikipedia não é uma enciclopédia tradicional, não tem os constrangimentos físicos das de papel, tem uma capacidade virtualmente ilimitada, podendo por isso albergar entradas menos ortodoxas. Ou nem tanto. Um leitor do blog (HEADACHE) alerta para as semelhanças com uma iniciativa de um humorista norte-americano e que merece uma entrada na mesma Wikipedia (artigo não recomendável a espíritos mais sensíveis). Aliás, há vários artigos relacionados com factos da área do humor (ou da falta dele): 1, 2, 3. Qual seria então o problema?

Na página de discussão da Wikipedia alguém avança a sugestão de que será uma guerra travada pelos wikipedistas brasileiros contra os portugueses (neoprodigy). A teoria é rebuscada mas é interessante verificar como a ideia é recorrente quando o assunto é a língua portuguesa. A discussão é encerrada por uma série de serenos e técnicos argumentos contra a manutenção da entrada (maf). Apagar a entrada não corresponde a nenhum juízo de valor sobre o facto ou a qualidade do texto do artigo. Muito simplesmente, o facto, a "operação prestígio", não terá ainda a capacidade de influência no estado de coisas necessária para poder constar numa enciclopédia. E como se avalia esta importância? O artigo não pode ser uma investigação original mas deve basear-se em fontes secundárias. Uma enciclopédia (mesmo que em formato wiki) não determina a importância de um dado assunto mas regista a importância que os outros lhe dão ou lhe reconhecem. É, por isso, que se pode provavelmente justificar a existência dos artigos já referidos. Por ordem de legitimidade: 1, 2, 3.

Como pode então um mero mortal fazer valer uma mudança na língua? Ou mesmo evitá-la, sem ser através do chicote da lei? Como evitar, neste caso, uma mudança (para pior), a transformação de "prestígio" num valor quantificável a que temos de obedecer por ordem judicial? De qualquer modo, é interessante verificar a transfiguração da palavra da origem até aos dias de hoje: afinal, "prestígio" era a ilusão dos sentidos ou encantamento atribuídos à magia, em sentido figurado ou não.

[Provavelmente, a "operação prestígio" já tinha cabimento aqui.]
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Português falado em Londres #7

Posso ter, fórmula decalcada do ing. may I have, usada para fazer pedidos, ex.: posso ter um lápis.
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O covil dos gambuzinos

Passo a destacar aqui ao lado as coisas que gostei de ler e a registá-las no Covil dos gambuzinos. O negativo do Covil, o KIP, deixei de o actualizar há algum tempo mas estou a pensar ressuscitá-lo. Só falta ganhar coragem para ler certas coisas.
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Português falado em Londres #6

Duvê, s.m., do ing. duvet, edredão, manta.
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Português falado em Londres #5

Apontamento, s.m., do ing. appointment, marcação, consulta, reunião.
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Português falado em Londres #4

Detention detention, s.m., castigo escolar.
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Português falado em Londres #3

Tráfico, s.m., do ing. traffic, trânsito, tráfego.
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Português falado em Londres #2

Forma, s.f., do ing. form, formulário, impresso, ficha, modelo.
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Português falado em Londres #1

Mitra, s.m/s.f., do ing. parking meter, parquímetro.
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A educação como serviço

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Estamos a assistir à transformação da educação num serviço. Maria de Lurdes Rodrigues e José Manuel Fernandes (este, em marcha-à-ré acelerada) são apenas fantoches com ilusão de poder nesse processo. As implicações económicas e sociais dessa transformação são enormes: um serviço é contratado para satisfazer necessidades pessoais ou institucionais, quando e como o cliente deseja. Não há aqui qualquer preocupação com o bem comum ou com um mínimo denominador comum de cidadania ou educação -- a satisfação deve ser imediata e personalizada; deve, no fundo, proporcionar-se uma experiência de utilização agradável e em que a sugestão de poder é essencial. O cliente tem sempre razão. Os serviços de telecomunicações, por exemplo, tentam proporcionar essa sensação de poder e de facilidade de utilização -- múltiplos tarifários, serviços supostamente diferenciados, marcados pelas ideias de exclusividade e sofisticação, slogans onde surgem palavras como liberdade, excelência, prazer, etc., etc. Repare-se que estas ideias não têm uma relação directa com o serviço vendido (que tem mais a ver com aparelhos electrónicos e protocolos de transferência de dados) mas são sobrepostas a esse mesmo serviço, para criar uma apetência mais emocional do que racional.

Também na educação se está caminhar neste sentido. A educação não corresponderá a uma função de uma comunidade (estado, por exemplo) que tem um projecto de cidadania e instrução para cada um dos elementos que a constituem mas um serviço prestado individualmente, destinando a satisfazer necessidades de curto prazo e onde palavras como excelência, qualidade e rigor funcionam como dispositivo publicitário mais ou menos postiço. Inquirir os clientes, avaliar a satisfação do cliente destina-se mais a dar orientações aos técnicos de marketing e publicidade do que a melhorar de facto telemóveis, protocolos de comunicação ou a instituir práticas comerciais eticamente aceitáveis. Inquirir clientes em educação destina-se a proporcionar uma experiência mais agradável e em linha com as expectativas de curto prazo de alunos e famílias.

Um caso recente é o aumento exponencial de "cursos profissionais", nome bonito que se dá a soluções de recurso para alunos com historiais de insucesso e, em alguns casos, problemas que se abeiram da sociopatia. O consenso é generalizado, são úteis, são necessárias pessoas com competências práticas, o ensino geral é muito teórico*, nem todos têm as mesmas capacidades... Trata-se, no fundo, de proporcionar uma experiência de utilização agradável, vejamos: os alunos são poupados à mistura incoerente que é o currículo regular (até aqui tudo bem). Têm poucas disciplinas, divididas entre formação geral e formação específica. As instruções das direcções das escolas vão no sentido de não ser realmente necessário aprender nada nas disciplinas de formação geral (ler, escrever, falar um mínimo de inglês, por exemplo), desde que as aulas corram com um mínimo de conflitos e os alunos não abandonem a escola. Pretende-se que, de facto, os alunos aprendam a fazer alguma coisa nas disciplinas específicas, até porque os alunos vão fazer estágio no final do curso. O regime de faltas rigoroso (os alunos não podem faltar, ponto) é apenas rigoroso na legislação; na prática (o curso é prático, não é?), em muitas situações, as faltas são varridas para debaixo do tapete. Os alunos têm pequeno-almoço e almoço gratuitos, muitas vezes servidos à parte, não tendo que se sujeitar a filas e momentos de espera. Os alunos têm direito a um pagamento. Os alunos têm férias pagas. Aos alunos é tolerado qualquer comportamento para que não abandonem a escola. Os alunos andam satisfeitos e as famílias também.

Neste contexto, quem quer que seja que ouse pôr em causa o estado de coisas é pura e simplesmente humilhado, ofendido, ou, na melhor das hipóteses, ignorado. Aqui é a satisfação grosseira do cliente que vale, não havendo um projecto em que a dignidade e a realização de todos seja assegurada. Aqui vale a promoção do serviço e a publicitação de uma aura de excelência e positividade postiças. É esta a qualidade e este o rigor que nos querem vender?

*A confusão que se faz entre teoria e prática, mesmo em pessoas com um certo nível de instrução, é aterradora. Teorizar é postular regras e rotinas a partir da observação de casos particulares. A apologia da prática que se faz agora não é mais do que a recuperação reaccionária de uma ideia medonha: uns são feitos ou nascem para fazer (sem pensar), outros são feitos ou nascem para pensar, descobrir, organizar, dirigir. Separar uma coisa da outra no ensino, é criar duas castas, seres humanos de qualidade diferente.
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