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O que diz Molero

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Quando comecei a ler O que diz Molero, o que mais me intrigou (a ponto de me irritar) foram as constantes interrupções da fala das personagens. "Disse Austin", "disse Mister DeLuxe", "disse Austin", "perguntou Mister DeLuxe". Só na primeira página da edição que tenho à minha frente (a de 1984), há oito destas interrupções. Nas primeiras cinco, trinta e oito. E, nas primeiras dez páginas, cinquenta e quatro destas interrupções. Se me é permitida uma pequena projecção a partir da amostra, o romance deve ter mais de 1500 destas curtas incisões no texto. Que necessidade havia -- perguntava eu -- de fazer da história uma acta em que cada argumento ou facto tinha de ser obrigatoriamente atribuído a alguém, como se cada argumento ou facto pudesse ser objecto de disputa?

Mas o que estava a ser discutido naquelas primeiras páginas era, de facto, não tanto uma acta mas um relatório. Um relatório sobre a vida de um rapaz. A impressão que tive foi a de que a bizarra conversa entre Austin e Mister DeLuxe estava a decorrer num laboratório devidamente assepsiado, com as personagens a folhear com luvas brancas o relatório de Molero. Luzes cruas e brancas, de lâmpada fluorescente, a iluminá-los por cima. Ou seria num gabinete à detective privado ou repartição pública, mais obscuro, com Austin e Mister DeLuxe a comentar o relatório com os modos soturnos e furtivos de agentes de um estado concentracionário? E por que diabo tinham estas personagens, que não necessariamente pessoas, nome de automóvel dos anos 60? E quem era Molero, esse minucioso relator com nome espanhol que significa fabricante ou vendedor de mós?

Continuei a ler e logo aprendi a aceitar Austin, Mister DeLuxe e Molero sem grandes reservas. Se aceitava sem pestanejar naqueles narradores tipo deus, que sabem tudo e mais alguma coisa, qual era dificuldade em aceitar que uma história me fosse contada por três criaturas com nomes exóticos e que, sabendo muita coisa, nem sempre sabiam tudo. Seria o equivalente a ser católico convicto e ter dificuldade em acreditar no Flying Spaghetti Monster. Aliás, o relatório de Molero chega a ter passagens obscuras e coisas que não especifica. Molero chega a precisar, depois do aturado trabalho de investigação e ao jeito de um ser humano, de "uma pequena cura de repouso e de desintoxicação". E até merece um abraço caloroso de Mister DeLuxe. À distância.

Desintoxicação? Da "beberagem que sabia a ferrugem" que levou aos lábios? Do emaranhado dos assuntos dos homens? Ou do contacto com o vulto "nem de homem nem de mulher" que irradiava sabedoria e que lhe indicou a morada do rapaz? De qualquer modo, as extravagâncias d'O que diz Molero, seja o vulto de olhar azteca, sejam os assuntos complicados dos homens (sobretudo estes últimos), fazem sentido. Tanto mais quanto o contraponto é feito pelas assépticas e secas incisões de um quarto narrador (Dinis Machado ele mesmo?): "Disse Austin", "disse Mister DeLuxe", "disse Austin", "perguntou Mister DeLuxe".

É como se o exotismo d'O que diz Molero vibrasse com mais força e autoridade enquadrado por uma moldura minimalista. Só nas primeiras cinco páginas da edição que tenho à minha frente, misturam-se no mesmo quadro um elástico metafórico, burriés do nariz (que o rapaz comia), uma casca de banana, um escarrador, uma tela de Miró, bowling com garrafas, uma grande bola de pratas de chocolate, uma aparelho para endireitar os dentes, um Rato Mickey tatuado, um artigo de jornal, Paris e Matisse. E, se me é permitida uma amostragem das 182 páginas do romance, uma foda no chão (que a cama rangia), campeonatos de bilhar, um bando de camones, um suicídio, Pessoa e Pessanha, Groucho Marx, charutos marca Winston, chantilly nas nádegas de uma adolescente, o deserto do Sara e uma coisa chamada a estrela do Descoiso.

Se é verdade que lemos como forma de conhecimento, como forma de dar sentido, O que diz Molero oferece duas categorias de estar no mundo. Queremos nós ser o rapaz, mergulhado de cabeça no tumulto desordenado da vida, ou Molero, que a vê e regista de fora, diligente, sempre à cata de um sentido último? Não sei se será a resposta mas o rapaz ficou lá em cima junto ao sol; Molero, esse, qual inválido, fica-se por um anódino descanso e uma recompensa administrativa.
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Português falado em Londres #11

Comer dentro, expressão decalcada do ing. eat in, consumir uma refeição no interior do restaurante (por oposição a take away).
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Dinis Machado (1930-2008)

Lavei os dentes e voltei para a cama. Li algumas páginas de Bradbury sobre marcianos. Meu bom Bradbury, companheiro das estrelas, filho de Deus esquecido na Terra, a que bolsos sem fundo vais buscar os teus tostões de poesia? Peguei a seguir num livro de poesias de Rilke, mas comecei a sentir as pálpebras pesadas. Não me iludi. Para mim, sentir as pálpebras pesadas não é a certeza de dormir. Muitas vezes, fico de olhos fechados, esperando que o sono venha, muito quieto, para que o sono me surpreenda. Continuei a ler Rilke como quem lê fórmulas de medicamentos ou um jornal às avessas. A certa altura, pressenti que o sono chegava. Lá vem ele, o velho e renitente amigo, o estupor. Olga ainda me passou pelo pensamento como uma flecha antes de me sentir deslizar pelas quatro horas de esquecimento.


Dennis McShade, A Mão Direita do Diabo
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Mau

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Alguém chegou aqui à procura de "mau ensino em portugal" e acabou por encontrar umas coisas sobre mau jornalismo. Tem a sua piada e a sua verdade.
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Falhar alguém

Não gosto da palavra inglesa fail. Sobretudo em frases como "Schools are failing gifted pupils". Pode ser defeito meu. A minha língua materna é o português e em português ninguém falha ninguém (a não ser que lhe queira acertar com um objecto qualquer). Parece-me estranho aquele complemento directo. Parece-me que está a mais. Mesmo em inglês.

Para mim, quem falha falha sozinho. É uma questão interna -- é a diferença entre aquilo que nos propomos fazer e o que conseguimos concretizar. To be failed -- sermos falhados por alguém -- é ser coisa menor, é ser desconsiderado como incapaz. Incapaz de fazer o que quer que seja e incapaz de encaixar uma ou outra asneira que se vá fazendo pelo caminho.

Claro que a construção é possível em inglês. O Merriam-Webster admite-a sem reservas: to fail someone é frustrar as expectativas ou trair a confiança de alguém. O Cambridge Advanced Learner's Dictionary, menos dramático, regista fail como o acto de não ajudar alguém quando a ajuda é tida como certa e devida. E o Compact Oxford English Dictionary não indica significado exactamente equivalente (tenho de ir espreitar o imponente OED).

A consulta dos dicionários mais não fez do que aumentar a minha desconfiança em relação ao verbo fail. Não posso deixar de pensar que falhar alguém é uma receita gramatical recente, receita aparentada com outras palavras que circulam por aí: sucesso, competências, objectivos (ou, em inglês, achievement, skills, targets). Não posso, por isso, deixar de pensar que "Schools are failing gifted pupils" é uma contradição nos termos. É estarmos a desconsiderar os que consideramos os mais dotados.
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Português falado em Londres #9

Kitcheneiro, s.m., do ing. kitchen (cozinha) + sufixo -eiro.
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Português falado em Londres #8

Basamento, s.m., do ing. basement, cave.
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Derrotas

- Não tornes a dizer rentável.
Vê, no dicionário, o adjectivo rendoso.

- Se tiveres de dizer viciado, não digas dependente.

- Mulher que abdique da feminilidade quer ser homem. Considera-se inferior ao homem. Se for poetisa, quer ser poeta.

- Se lá ficou para sempre, em terra portuguesa, lá se enraizou. Não digas radicou.

- Hèrnâni é pronúncia de locutor soletrante. Pronúncia de quem sabe ler é Hirnâni.

- Na opinião deste dispensário, antes bébé que bebé. Antes néné que nené.

João de Araújo Correia, Dispensário Linguístico

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Vitórias

- Se não pertences à família dos Teles Visões, não digas têlevisão. Pronuncia televisão, com os ee tão surdos como os de telegrafia.

- Quis Garrett, o nosso, que lhe chamassem portuguêsmente Garrett. Mas, ainda há em Portugal quem lhe chame Gàrré. Parece impossível.

- Não tornes a dizer primeira ministro. Deves dizer primeira ministra.

João de Araújo Correia, Dispensário Linguístico

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Ler

Uma senhora viaja acompanhada. Lê um livro e fala com a pessoa ao lado dela. Lê e fala em simultâneo. A serena disponibilidade para falar com o jovem que a acompanha é a mesma que dedica à leitura, igualmente diligente numa e noutra tarefa.

A senhora lê, linha a linha, com as mãos em constante movimento, um livro em braille.
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Citação #10 (da morfologia)

«Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.»

Pilar del Río em entrevista a João Céu e Silva, Diário de Notícias, 6 de Julho de 2008
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Do toucinho e das vírgulas

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O predicado é o que se diz do sujeito. Se digo que "o toucinho engorda", uma coisa sei sobre o toucinho: que engorda. Não se justifica uma vírgula. Aliás, é erro de palmatória pôr vírgula entre o sujeito e o predicado. Muito bem. Acontece que o sujeito é, por vezes, mais complicado do que um simples toucinho. Exemplo: "comer toucinho engorda". O que é que eu sei sobre "comer toucinho"? Que engorda. Muito bem. Mas o sujeito pode complicar um pouco mais: em número de palavras, a função é a mesma. Exemplo: "o que não mata engorda". O que é que eu sei sobre coisas que não matam. Que engordam. Não faz falta a vírgula. Ou faz?
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Citação #9 (da leitura)

«Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, em vez disso, o leitor se desgasta, se esvai em milhares de livros mais áridos do que três desertos.»

Nelson Rodrigues, O Óbvio Ululante
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Sem-Abrigo

Sentado no chão, encostado a um recanto cagado pelos pombos, em cima de um saco-cama sujo e roto, não pede uma moeda, não olha para cima a desejar bom fim-de-semana aos que dão alguma coisa e aos que não dão. As pessoas ignoram-no mas ignoram-no sem esforço, sem a pressa fingida do costume. O homem sentado no chão lê, com toda a atenção e quase sem pestanejar, um livro.
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Portobello Road às Três da Tarde #2

Uma mulher de burka a comprar legumes. Um homem em tronco nu seguido de dois cães atrelados um ao outro (param, ao lado do dono, em frente à passadeira). Uma mulher de bicicleta e saltos altos. Um senhor de chapéu e bengala. Um jovem de gorro e, pelo menos, dois agasalhos (vinte e tal graus). Um par de namorad@s a conversar na rua. Uma mulher com as palavras "olhar de esperança" escritas na frente da t-shirt (em português). Uma senhora de idade a puxar o carrinho das compras. Dois turistas de máquina fotográfica ao pescoço.
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Portobello Road às Três da Tarde #1

Dois ou três clientes bebericam café. Lá fora faz sol. Entra um grupo de rapazes, pedem café e chá ao balcão. Entretanto ouve-se a empregada perguntar se não vão mesmo pagar as bebidas. Os rapazes saem a rir. Um dos empregados segue-os e diz, com sotaque italiano, "ya fuckin niggers". Um dos rapazes vira-se para trás a tirar satisfações. Um nativo (branco) que entretanto entrara aconselha-os, em tom paternalista, a saírem e a evitarem problemas. Tudo volta à pacatez inicial.
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Mãe, também quero um acordo ortográfico

Por infeliz idiossincrasia ou contumaz regionalismo digo os ós abertos. Por isso, quero poder escrever estômago com acento agudo: estómago.
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Perder a noção do tempo 2

É o primeiro dia de uma viagem de vinte dias. Nos primeiros dez, Laura afastar-se-á da Terra. Nos derradeiros dez, Laura aproximar-se-á da Terra. Sempre a 99,9999999996% da velocidade da luz. Laura estará de volta no dia 28 de Fevereiro.

Mas que tempo verbal deverá usar para se referir ao seu aniversário?


Se a viagem é feita a 99,9999999996% da velocidade da luz, o tempo do veículo espacial desacelera em relação ao da terra. De acordo com a fatia temporal dos viajantes estelares, Laura pode ainda festejar o aniversário. Pode usar o presente do indicativo e dizer qualquer coisa como "amanhã é o dia do meu aniversário", com a certeza de quem verifica um facto. Ou usar um presente perifrástico (com valor de futuro): "vou celebrar o meu aniversário". No entanto, na terra passaram 10 000 anos. Estamos no ano 12 980 e os amigos e familiares de Laura já não se encontram entre os vivos (daí o misto de alegria e pesar da nossa cosmonauta). Laura já não pode festejar o aniversário de 2980. Este pertence ao passado e, como tal, devemos falar dele com um pretérito perfeito, reservado aos factos consumados e acabados. Quer isto dizer que o dia que Laura queria celebrar já não existe. A sensação de que esse dia ainda pertence ao futuro mais não é do que a nostalgia de alguém que se regula por um tempo que não foi o seu. Resta-lhe abraçar o futuro: 12980 é ano bissexto e Laura pode festejar o seu dia 29 de Fevereiro.

[inspirado numa passagem das páginas 448 e 449 do livro The Fabric of the Cosmos de Brian Green]
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Só podem sair da escola ao fim do dia

Um dia, no início da ida década de 90, assisti a um palestra sobre o sistema de ensino inglês. A palestrante era uma professora inglesa a dar aulas em Portugal, numa universidade. Não me lembro exactamente dos temas que foram tratados, só me lembro que foi tudo muito factual. Até à parte das perguntas. Apesar do que se possa pensar (e de incontestáveis pontos fortes), o ensino inglês não é (e não era, na altura) só virtudes: aliás, se os portugueses são os bárbaros da Europa, os ingleses são os bárbaros do norte da Europa. De qualquer maneira, as coisas passaram-se assim.

Uma rapariga pede a palavra e diz que já tinha ido ao Reino Unido. Que tinha gostado mas que as escolas eram muito rígidas, que os alunos só podiam sair da escola ao fim do dia, que era preciso usar uniforme e que o ambiente era muito menos descontraído. Enfim, afinal não tinha gostado assim tanto e só lhe faltou dizer que os britânicos eram uns cinzentões mal-humorados.

A senhora ouviu e explicou que, de facto, havia certas regras que podiam parecer excessivas mas que, para melhor estabelecer a diferença com Portugal, lhe ia fazer uma pergunta. Era verdade que havia todas aquelas regras dentro da escola mas seria possível que os pais daquela menina lhe dessem, como era normal no Reino Unido, a liberdade de nas férias viajar sozinha pela Europa?
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Uma questão de prestígio

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Um título que circulou pelos jornais aqui há uns tempos – “Reclamante condenada em tribunal por “pôr em causa o prestígio” do restaurante” – fez-me lembrar a campanha lançada pelo humorista Nuno Markl contra a palavra “prestígio” no blog Há Vida em Markl.

Primeiro a notícia: uma mulher é condenada em tribunal a pagamento de indemnização e a 75 (?) dias de prisão (substituidos pelo pagamento de 15 euros ao dia) por ter posto “em causa o prestígio, crédito e confiança” do restaurante. Segundo a notícia, a senhora terá mostrado a sua insatisfação com o serviço de uma maneira particularmente visível e audível, comportamento que o tribunal terá considerado incompatível com o “prestígio” do estabelecimento. Causa aqui estranheza que este "prestígio" tenha propriedades de tal maneira objectivas e tangíveis que possa ser tão minuciosamente quantificado. Repare-se: 300 euros de multa + 15 euros x 75 dias de prisão = 1425 euros. Afinal, a palavra "prestígio" não é um substantivo abstracto (enfim, quem tiver algum interesse nas ramificações mais ou menos políticas do caso, leia a notícia e os comentários no jornal Público).

A campanha: provavelmente como reacção a esta passagem de substantivo abstracto a substantivo demasiado concreto, a campanha, baptizada de Operação Prestígio (nome a fazer lembrar o programa de televisão em que Markl é jurado), tem como alvo o uso abusivo da palavra, que serve, segundo o quase-manifesto do humorista, "tanto para vender bombons ou papel higiénico de marcas respeitáveis, como para definir a carreira de pessoas ilustres". Indiscriminadamente, claro – o que contribui para o descrédito e esvaziamento da palavra. Markl propõe uma mudança de significado: onde se lê “notoriedade” ou “valor” leia-se “cu”. Sim, “cu”. O dicionário, tomando o cuidado de nos avisar que a palavra é um vulgarismo, diz-nos o que se entende por “cu”: extremidade do intestino grosso, ânus, nádegas, rabo, fundo da agulha, assento. Enfim, assimilada a mudança de significado, as possibilidades são infinitas. Eis algumas das sugeridas pelos leitores do blog:

  • vossa excelência tem um prestígio imenso; com o passar do tempo, o seu prestígio foi descaindo; gostaria um dia de possuir o seu prestígio (Susana, leitora que foi particularmente generosa em sugestões)
  • eu por acaso tenho uma amiga com um bom prestígio... mas bem bom! (Manuel Reis)
  • Os árbitros insistem em denegrir o prestígio do meu benfica (Pedro Pereira)
  • Tens mesmo cara de prestígio. (POVD)
  • Viva o prestigio africano!!! E o brasileiro. E o sueco. (Flávio)

Para lá do propósito humorístico da proeza, é entusiasmante ver um falante/escrevinhador da sacrossanta língua do defunto Camões, sem outra autoridade que a de um mero utilizador (se bem que profissional: Markl é argumentista), ousar tentar mudar o estado das coisas. É que Markl não se pode valer das formas de legitimação tradicionais. Markl não é escritor literário e não tem o exército de críticos-jornalistas e críticos-académicos, professores universitários, fazedores de currículos e autores de manuais escolares a tecer-lhe loas à capacidade de reinvenção da língua. Markl não é linguísta e não tem uma editora a apadrinhar-lhe a capacidade de iniciativa com uma publicaçãozinha (dicionário, gramática ou afim) nem o poder político a transformar-lhe a proposta em decreto-lei ou despacho. Não tendo nada disto, Markl valeu-se da rádio (a coisa parece ter começado na rádio) e da internet. E alguém se lembrou da Wikipedia para dar um ar mais oficial à campanha.

[A rádio e sobretudo a televisão podem ser meios poderosos de introdução (ou reintrodução, no caso das novelas brasileiras) de palavras e expressões. O problema é chegarem à oficialidade de um dicionário, por exemplo.]

E o que pensou a comunidade wikipédica do assunto? Foi motivo de animada polémica até ao momento que a entrada "operação prestígio" foi definitivamente apagada. A dita campanha, o facto em si (e a subsequente entrada), foi acusada de não ter valor enciclopédico. A decisão final (por votação) foi a de eliminar o artigo mas as vozes que se fazem ouvir ler na página de discussão são de apoio incondicional: "Não importa o que chamar ao artigo que criei. O que fiz foi relatar um facto. Um acontecimento. Qualquer informação que não seja mentira tem valor enciclopédico (para alguém)" (Mario, autor da entrada?). O argumento do "valor enciclopédico (para alguém)" parece-me interessante. A Wikipedia não é uma enciclopédia tradicional, não tem os constrangimentos físicos das de papel, tem uma capacidade virtualmente ilimitada, podendo por isso albergar entradas menos ortodoxas. Ou nem tanto. Um leitor do blog (HEADACHE) alerta para as semelhanças com uma iniciativa de um humorista norte-americano e que merece uma entrada na mesma Wikipedia (artigo não recomendável a espíritos mais sensíveis). Aliás, há vários artigos relacionados com factos da área do humor (ou da falta dele): 1, 2, 3. Qual seria então o problema?

Na página de discussão da Wikipedia alguém avança a sugestão de que será uma guerra travada pelos wikipedistas brasileiros contra os portugueses (neoprodigy). A teoria é rebuscada mas é interessante verificar como a ideia é recorrente quando o assunto é a língua portuguesa. A discussão é encerrada por uma série de serenos e técnicos argumentos contra a manutenção da entrada (maf). Apagar a entrada não corresponde a nenhum juízo de valor sobre o facto ou a qualidade do texto do artigo. Muito simplesmente, o facto, a "operação prestígio", não terá ainda a capacidade de influência no estado de coisas necessária para poder constar numa enciclopédia. E como se avalia esta importância? O artigo não pode ser uma investigação original mas deve basear-se em fontes secundárias. Uma enciclopédia (mesmo que em formato wiki) não determina a importância de um dado assunto mas regista a importância que os outros lhe dão ou lhe reconhecem. É, por isso, que se pode provavelmente justificar a existência dos artigos já referidos. Por ordem de legitimidade: 1, 2, 3.

Como pode então um mero mortal fazer valer uma mudança na língua? Ou mesmo evitá-la, sem ser através do chicote da lei? Como evitar, neste caso, uma mudança (para pior), a transformação de "prestígio" num valor quantificável a que temos de obedecer por ordem judicial? De qualquer modo, é interessante verificar a transfiguração da palavra da origem até aos dias de hoje: afinal, "prestígio" era a ilusão dos sentidos ou encantamento atribuídos à magia, em sentido figurado ou não.

[Provavelmente, a "operação prestígio" já tinha cabimento aqui.]
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